Friday, 18 November 2011

Nightmare

Eram 3 horas da manhã quando ela acordou sozinha na cama. Na noite anterior não havia acontecido nada incomum. Colocou a filha de 5 anos para dormir e jantou com o marido como fazia todas as noites. Ele parecia mais calado que o normal, mas como estava se recuperando de uma gripe forte, achou isso natural.

Apesar do frio que fazia naquela época em Merimbula, saiu da cama e andou até o quarto da filha. Quando viu a cama vazia, correu para a sala chamando pelo marido. Nenhuma resposta. Continuou chamando pelos dois por mais algum tempo, quando viu a boneca preferida da sua filha caída no jardim. Na mesma hora o pânico tomou conta dela. Sua filha jamais se separava da boneca, nem para tomar banho. Correu novamente até o quarto dela e abriu o armário. Ao ver que estava completamente vazio, começou a gritar e logo depois, desmaiou.

Quando abriu os olhos novamente, respirou aliviada.

“Este foi o pior pesadelo que já tive!”, pensou.

Ao olhar em volta, não reconheceu onde estava e viu sua irmã sentada ao lado da cama.

“Então não foi pesadelo?” perguntou.

Sua irmã balançou a cabeça negativamente.



Foram sete anos de sofrimento, dúvida, mágoa e saudade. Neste período, emagreceu, envelheceu, mas não perdeu a esperança. Nunca entendeu os motivos que levaram seu marido a sumir no mundo com sua única filha. Mas a verdade é que não queria entender, só queria a filha de volta.

Depois de anos de buscas, finalmente o telefone tocou. Seu marido foi encontrado morando em Darwin, norte da Austrália. Ao ser cercado pela polícia, usou a menina de escudo e acabou atingido.

O reencontro foi estranho. A menina não via a mãe desde os 5 anos, agora já era uma adolescente. Ainda traumatizada por assistir a morte do pai, a menina se fechou. Demorou, mas aos poucos a mãe foi conquistando a confiança dela novamente e acabaram se tornando melhores amigas.



Onze anos depois eu as conheci.

Dotty e Amy são realmente pessoas muito especiais e a história de vida delas é de tirar o fôlego.

Quando Dotty me contou estávamos dentro da St. Peter´s Cathedral. Toda semana ela vai até lá agradecer por ter encontrado a filha. As duas ainda participam de um grupo de ajuda humanitária que arrecada mantimentos e roupas para países mais pobres.

Sua força e determinação são realmente inspiradoras. E a história delas vai me acompanhar pelo resto da vida.


Friday, 4 November 2011

Tá nervoso? Vai pescar!

Uma das coisas que me chama a atenção em Adelaide é que ao contrário de Sydney, Melbourne e Gold Coast, aqui é muito raro ouvir pessoas conversando em português nas ruas. Não tinha ouvido nenhuma vez desde que cheguei aqui, pelo menos até uma semana atrás.


            Estava caminhando pela North Terrace em direção ao museu quando, em frente à belíssima State Library of South Australia, ouço uma voz vindo dos bancos:


“Tô perdido...”


E qual não foi a minha surpresa quando vi que, na verdade, quem falava esta frase era um autêntico australiano! Não pude me conter e fui lá falar com ele. A história é ótima. Seu nome é Martin e faz dois anos que ele namora Renata, natural de Brasília. Ele não fala nada de português, só algumas palavras soltas. O mais engraçado é que ele aprendeu com ela algumas frases em português e gostou tanto da melodia delas que utiliza sempre, como se fosse sua língua nativa. A favorita dele é: “Tá nervoso? Vai pescar!” hahaha Simplesmente hilário.


            O fato é que Martin se esqueceu do aniversário de namoro e agora tem que pensar em alguma coisa bem especial para levar para ela.


Isso explica o “Tô perdido” que ouvi vindo do nada...


            Na mesma hora liguei para Dotty e pedi o nosso arranjo mais especial. Ele é tão lindo e grandioso que é capaz de derreter o mais furioso dos corações.


            Resultado: o aniversário foi um sucesso e eu conheci minha primeira amiga brasileira em Adelaide. Adorei!


Outro dia fui com Amy, Martin e Renata no The Elephant British Pub. Experimentei a Abbot Ale e recomendo o fish and chips de lá. A fachada é uma graça e o bar super agradável. Vale à pena conhecer.


Por volta de 2 da manhã Martin nos avisa que o pub vai fechar.


“Really?”, digo suspirando na mesa.


            E ele finaliza todo sério e em ótimo português:


“Deus ajuda quem cedo madruga.”


E gargalhada geral.